A SIMPLIFICAÇÃO DA VIDA (Thomas Kelly)
John Woolman (alfaiate quaker do século XVIII, cujo o diário é um clássico da espiritualidade) o fez. Ele resolve organizar seus afazeres exteriores de tal modo que pudesse estar, a cada momento, atento àquela voz. Simplificou a sua vida à base da sua relação com o Centro divino. Nada mais valia tanto quanto a atenção à Raiz de todo o viver que ele descobria dentro de si mesmo. E a descoberta quaker é justamente esta: os sussurros de orientação e amor e presença divinos, mais preciosos do que o céu e a terra. John Woolman nunca permitiu que as exigências do seu negócio ultrapassassem as suas necessidades reais. Quando vinham muitos clientes, eles os mandava para outro lugar, para comerciantes e alfaiates mais necessitados. Sua vida exterior tornou-se simplificada à base de uma integração interior. Descobriu que podemos ser homens e mulheres guiados do céu, e se rendeu completamente, sem reservas àquela orientação, mantendo-se aquecido e próximo ao Centro.
Eu disse que a sua vida exterior tornou-se simplificada, e usei de propósito a voz passiva. Ele não precisou lutar e renunciar e se esforçar para alcançar a simplicidade. Ele rendeu-se ao Centro, e sua tornou-se simples. Era sinóptica; tinha singeleza de visão. “Se o teu olho for singelo, todo o seu corpo será cheio de luz”. Seus muitos egos integravam-se num só ego verdadeiro, cujo único objectivo era andar humildemente na presença e orientação e vontade de Deus. Nada de derrota eleitoral de uma minoria de egos descontentes. Era como se houvesse nele um presidente que no silencia solene da interioridade, percebia o consenso da reunião. Eu diria que o método quaker de conduzir reuniões administrativas aplica-se também individualmente, às nossas vidas interiores. O Santo observava, na vida interior de John Woolman, como fez Jesus quando observou as pessoas colocando suas ofertas na tesouraria.
E debaixo do olhar silencioso daquele que é Santo que estamos todos, quer o saibamos, quer não. No Centro, no Abismo onde habita o Eterno no fundo do nosso ser, nossos programas e doações e oferendas de tarefas realizadas estão sendo constantemente reavaliados. Não conseguíamos dizer “não” a eles, porque pareciam tão importantes. Mas se centrarmo-nos e vivermos no Silêncio que é mais precioso do que a vida, e levarmos o nosso programa para os lugares silenciosos do coração, com abertura total, prontos a fazer ou a renunciar segundo a sua direcção, muitas das coisas que fazemos perderão a sua importância. Eu gostaria de testificar isso, como experiência pessoal, fruta da graça.