Espiritualidade e pós-modernidade!
Porque existe hoje tanto interesse na espiritualidade? Embora nem sempre relacionadas, a espiritualidade e a cultura pós-moderna andam juntas. Se olharmos para trás, veremos que o mundo moderno era o mundo racional, científico positivo, que acreditava na bondade natural do ser humano. Era o mundo das certezas. O mundo pós-moderno é o mundo do desencanto, da decepção, das incertezas. Emocionalmente a modernidade reflecte o progresso, o optimismo, a confiança na tecnologia. O pós-moderno é o oposto. É negativo, irracional, desiludido.
Espiritualidade é hoje um termo bastante abrangente e abstracto e reflecte o espírito humano contemporâneo. O desencanto das ideologias, a alienação provocada pelos avanços tecnológicos, a subjectividade das convicções, a abstracção da arte e a relativização dos valores, geram um enorme vazio na alma humana. Assim, a espiritualidade hoje não se refere apenas àquilo que o Espírito de Deus está fazendo, mas também às múltiplas formas de protesto do espírito humano diante da crise gerada pelo desencantamento do mundo moderno.
A espiritualidade é o reflexo do espírito humano. Temos a espiritualidade no mundo dos negócios, a espiritualidade feminista, a espiritualidade ecológica, a espiritualidade negra, e por aí vai. É a reacção contra todas as formas superficiais e racionais de olhar para a complexidade da vida. Esta revolução, que durante todo o século 20 manifestou-se de diversas formas, apresenta hoje um novo desafio ao cristianismo. O cristão pós-moderno não se contenta apenas com as “informações” correctas sobre a fé., deseja prová-la pessoalmente. É o reconhecimento de que uma boa teologia ou uma doutrina sadia não implica necessariamente num relacionamento verdadeiro e pessoal com Deus.
Entre os cristãos vemos crescer um novo interesse na espiritualidade e nas disciplinas espirituais. A crescente busca por livros que tratam da intimidade com Deus, oração, meditação, contemplação, cura para feridas e traumas interiores, o novo e crescente interesse na “adoração” e o crescente desinteresse na reflexão teológica e bíblica, testemunham uma grande mudança no eixo do foco dos cristãos. É também uma reacção ao racionalismo que nos alienou da vida e das questões mais pessoais da fé.
À luz de tudo isto, percebemos que a espiritualidade é mais um movimento de revolta do espírito humano do que de manifestações do Espírito de Deus. A tecnologia aumentou a nossa alienação e não nossos relacionamentos; as velhas estruturas da modernidade ruíram diante dos avanços electrónicos e a complexidade da condição humana nunca foi tão evidente como hoje. As tradições perderam seu valor e já não são mais um consenso na sociedade. Vivemos num momento aberto para grandes manifestações espirituais. O ser humano hoje não aceita mais viver sob a percepção estreita da vida, não aceita também viver apenas determinado pelos conceitos racionais, deseja experimentar de forma mais pessoal, intensa e verdadeira a graça de Deus. Ontem queríamos cabeças mais esclarecidas, hoje buscamos corações mais abertos.
O ser pós-moderno é um ser sem substância, uma expressão da moda, do consumo, da estética. É como se o estilo definisse a identidade. Os sumos sacerdotes da nova realidade são a propaganda, os meios de comunicação de massa, que afirmam que não temos identidade se não compramos, vestimos ou vivemos de acordo com os critérios determinados pela cultura de massas. Perdemos a singularidade. A crescente indústria do entretenimento procura nos distrair das grandes questões da vida e as diferentes propostas terapêuticas procuram construir uma nova realidade. Paradoxalmente, a cultura pós-moderna transformou-se numa forma de narcisismo e não conseguiu superar a superficialidade que tanto questionou e protestou.
Temos um grande desafio pela frente. O salmista pergunta :”Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim?” (Salmo 42:5). Talvez esta seja a pergunta da alma moderna. Por um lado temos a tarefa de preservar os fundamentos bíblicos e teológicos da espiritualidade cristã, mas, por outro temos a grande tarefa de dar sentido intelectual, espiritual, emocional, moral e teológico àqueles que abraçam a fé de Cristo. Sabemos hoje que não é suficiente ter uma boa doutrina ou uma boa música. Uma boa doutrina não implica num bom relacionamento com Deus, como uma boa música não implica numa adoração. Precisamos ir mais além.
Quando falamos em espiritualidade cristã, falamos sobre a realidade vivida a partir da revelação da Trindade. A identidade do cristão é racional. Cada pessoa na Trindade tem um identidade própria que é afirmada socialmente. Nossa identidade cristã está fundamentada em Cristo, não em programas. É uma identidade relacional e não funcional. Da mesma forma como na Trindade cada um se expressa no outro e tem no outro sua identidade, assim é a vida em Cristo. Não somos nós que damos significado a vida a partir de uma experiência vivida ou de defesa de uma doutrina ou teologia, mas no facto de ser uma “nova criatura em Cristo” que responde em obediência a revelação de Deus.
Ricardo Barbosa de Souza é pastor na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília.
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